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quarta-feira, 20 de julho de 2011

O HOMEM CONSCIENTE



Gurdieff, o eminente psicólogo russo, em uma análise feliz a respeito do homem, referiu-se aos dois estados em que o mesmo se apresenta como decor­rência do seu nível de consciência: adormecido e des­perto.

O trânsito pela reencarnação enseja ao ser o de­senvolvimento dos valores éticos, ampliando-lhe o espaço mental para as conquistas relevantes.

Ao mesmo tempo, quando entorpecida a consci­ência, antes lúcida, o indivíduo deixa-se conduzir atra­vés do mergulho nas distrações, que lhe constituem os interesses máximos do dia-a-dia, olvidando as quali­dades superiores que propiciam realmente a felicidade.

Essas distrações prendem-lhe a atenção e detêm-lhe o processo de busca interior, empurrando-o para as fugas espetaculosas e as transferências das metas prioritárias, importantes, para aquelas que enganam, apaixonando-o e levando-o às conquistas vazias das coisas que não proporcionam mais do que o breve bem-estar da volúpia egoística do momento, expres­sa nos prazeres que logo se esfumam.

Quando convidado às reflexões profundas a res­peito da sua realidade como ser imortal, encharcado pelas paixões como se encontra, não consegue deter-se em uma demorada análise de si mesmo, porque logo os pensamentos se expandem em várias dire­ções, afugentando-o do objetivo essencial propicia-dor do auto-encontro.

Saciado pelo gozo, embora atormentado pelo de­sejo de novos prazeres, a sua fixação mental é somen­te possível quando se refere ao campo das sensações, nas quais chafurda até a exaustão, para retornar à posição anterior de ansiedade e insatisfação.

Acostumado às idéias do imediato, que trazem respostas momentâneas, logo a seguir, qualquer pro­jeção no tempo constitui-lhe sacrifício vão, porqüanto não se dispõe a levar adiante a proposta inicial de realização demorada.

Os indivíduos, psicologicamente adormecidos, são ainda fisiológicos, não obstante possam estar projetados na sociedade e até mesmo bem considerados por ela.

Despertar significa identificar novos recursos ao alcance, descobrir valores expressivos que estão des­perdiçados, propor-se significados novos para a vida e antes não percebidos...

O despertamento retira o véu da ilusão e faculta a percepção da realidade não fugidia, aquela que pre­cede a forma e permanece depois da sua disjunção.

Estar desperto é encontrar-se participe da vida, estuante, tudo realizando com integral lucidez.

E mesmo o ato de dormir, para a aquisição do repouso físico, porque precedido de conhecimento do seu objetivo, torna-se um fenômeno de harmonia, sem os assaltos de clichês mentais arquivados, que asso­mam em forma de pesadelos tormentosos.

A fixação do despertamento resulta dos insisten­tes e contínuos espaços da mente, preenchidos pelo desejo veemente de adquirir lucidez.

Tudo quanto faz, realiza-o de forma consciente, desde o ato de coçar-se, quando concentrado, até o de superar o cansaço com o seu séquito de indisposi­ções orgânicas e psíquicas.

Estar desperto é mais do que encontrar-se vivo, do ponto de vista fisiológico, superando os automatis­mos, para localizar-se nas realizações da inteligência e do sentimento enobrecido.

As distrações habilmente se disfarçam, justifican­do trabalho exaustivo, repouso demorado, conversa­ções prolongadas, caminhadas e ginásticas que con­somem horas, e que, não obstante úteis, desviam da meta essencial que é o despertamento de si mesmo.

Há uma generalizada preferência humana pelas distrações, pela fuga da realidade, consumindo-se tempo e saúde no secundário, com desconsideração ou por ignorância do essencial.

Lentamente, por processo de saturação das dis­trações ou pelo imperativo de novas reencarnações, o homem aspira à conquista de outros níveis de cons­ciência e emerge do sono, passando a identificar o atraso em que se encontra, diante das infinitas pos­sibilidades de que dispõe.

Altera-se-lhe então a visão para a auto-identifica­ção, entendendo que o largo período de sono é res­ponsável pela existência dos inúmeros conflitos que o aturdem, das contradições entre o que pensa e o que faz, entre ao que aspira e o que realiza, manten­do a sensação permanente de incompletude.

Quando anestesiado no nível de sono, sente a mesma necessidade de completar-se, porém, identi­ficando os meios para o tentame, arroja-se mais nas experiências do instinto, frustrando-se e sofrendo.

A razão propele-o para a tomada de consciência e, nesse estado, à medida que se envolve na liberta­ção das cargas psicológicas opressoras, asfixiantes, passa a fruir emoções que o enlevam, aumentando o número de vivências dos logros íntimos, que lhe cons­tituem degraus e patamares a galgar, tendo em men­te o acume, que será a perfeita conscientização de si mesmo.

Ser consciente significa estar desperto, respon­sável, não-arrogante, não-submisso, livre de algemas, liberado do passado e do futuro.

Cada momento atual é magno na vida do homem consciente, e tudo quanto se propõe realizar, ao invés de tornar-se desafio, é-lhe estímulo ao prosseguimen­to tranqüilo da iluminação interior.

Usa a inteligência e aplica o sentimento em per­feita interação, avançando sempre, sem recuos nem amarguras.

Certamente experimenta as contingências da vida social, dos prejuízos políticos, das injunções do corpo, sem que tais ocorrências o desanimem ou o infelici­tem.

Consciente desses fenômenos, mais se afervora na busca da harmonia, conquistando novas áreas que antes permaneciam desconhecidas.

Age sempre lúcido, e cada compromisso que assume, dele se desincumbe em paz, sem a preocupa­ção de vitória exterior ou mesmo de superação.

A autoconquista é-lhe um crescimento natural e não-perturbador, assinalado pelo aprofundamento da visão da vida, totalmente diverso do comum, passan­do-a a transpessoal, portanto, espiritual.

Harmonizando aspirações e lutas, buscas e reali­zações, o homem consciente vive integralmente todos os momentos, todas as ações, todos os sentimentos, todas as aspirações.

DIVALDO P. FRANCO - O SER CONSCIENTE - Pelo Espírito Joanna de Ângelis

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