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quarta-feira, 6 de julho de 2011

PAIXÃO E LIBERTAÇÃO PSICOLÓGICA



As tradições religiosas em torno da paixão de Je­sus teimam por revestir-se da notícia trágica, na qual a ação autopunitiva sobressai no comportamento do fiel.

Trabalhando-lhe a mente, a fim de gerar-lhe cons­ciência de culpa, com as consequências do medo em relação à justiça divina, intentam a lavagem cerebral para produzir o ódio pelo mundo, ao tempo em que mantêm os lamentáveis processos de cilícios físicos entre os fanáticos, e mentais ou emocionais naqueles que são constituídos por estrutura psicológica frágil.

Inegavelmente, as ocorrências dolorosas que as­sinalaram a última semana de Jesus, em Jerusalém, entre as criaturas, foram caracterizadas por ocorrên­cias infelizes, que ainda se repetem na sociedade, embora guardadas as naturais proporções.

Recordar-se da pusilanimidade humana, da fra­gilidade dos caracteres de Judas e de Pedro, faz-se necessário quando os objetivos são educativos, evo­cando-se, porém, o estoicismo das mulheres piedosas, de João, de José de Arimatéia que Lhe cedeu o se­pulcro novo, de modo que a aprendizagem se faça plena, através da dicotomia existente no comporta­mento humano, buscando-se oferecer uma mensagem de confiança, de arrebatamento e de fé.

O ser humano é ainda muito fragmentário e dú­bio, carecendo de amor e paciência, que são terapias excelentes para induzi-lo ao fortalecimento do cará­ter, da personalidade.

A constante condenação multimilenária deixou marcas profundas no inconsciente coletivo, de que ora se faz herdeiro natural, surgindo-lhe transformada em medo e desprezo por si mesmo ou indiferença pessoal e desleixo no culto dos valores morais.

A lição viva que ressalta em Jesus desde a entra­da triunfal e o julgamento arbitrário, sem qualquer defesa, propõe uma releitura do comportamento indi­vidual e coletivo dos seres, oferecendo a contribuição de resultados positivos nas reflexões mentais.

As crenças ortodoxas satisfazem-se com as imo­lações e as atitudes condenatórias que, tomadas em consideração, reconduziriam à ignorância, à treva medieval tormentosa.

As conquistas do momento, nas mais diversas áreas, particularmente da psicologia, não mais facili­tam atitudes alienadoras como essas, antes propõem a libertação dos conflitos, a fim de que a responsabi­lidade, que decorre da consciência lúcida, impulsio­ne o indivíduo ao avanço, ao crescimento, à maturidade.

Toda ação impositiva-castradora ou liberativa-in­sensata trabalha em favor do desequilíbrio, da desin­tegração do homem.

Toda a vida de Jesus é um processo que facilita o crescimento e a dignidade do ser humano.

Seus conceitos, refertos de atualidade, prosse­guem sendo uma linguagem dinâmica, desobsessiva, sem compulsão, abrindo elencos de alegria e facul­tando o desenvolvimento daqueles que os recebem.

Cada passo da Sua vida, leva-O a metas adredemente programadas. Sem rotina, mas, também, sem ansiedade, caracteriza-se pela vivência de cada mo­mento, sem preocupação pelo amanhã, pois que, para Ele, a cada dia bastam as suas próprias preocupações.

A alegria é uma constante em Sua mensagem, apesar das advertências freqüentes, das lutas aber­tas e de sempre O verem chorar...

A verdadeira alegria extrapola os sorrisos e se apresenta, não raro, como preocupação que não deprime nem fragiliza.

Torna-se uma constante busca de realizações con­tínuas, de vitória sobre as circunstâncias e os fenôme­nos que são naturais no processo da vida.

Sem paradigmas fixos, toda a Sua doutrina se constitui de otimismo e plenitude.

Quando os Seus seguidores marchavam para o holocausto, o martírio, o testemunho, faziam-no mo­tivados pelo amor, sem fugas psicológicas, sem trans­ferências, em manifestações de fidelidade, joviais e exultantes, sem ressentimentos nem ódios pelos perseguidores, por ser uma opção livre de utilização da vida.

A dinâmica das palavras de Jesus logrou condu­zir inumeráveis criaturas à realidade transcendente.

Libertador por excelência, a ninguém impôs far­do, asseverando que o Seu é leve e suave é a Sua for­ma de julgar, analisar e compreender.

Enquanto ressumem na consciência da Terra as condutas punitivas e as evocações deprimentes na área das religiões, o pensamento de Jesus permane­cerá em sombras, conflitos, perturbações.

A conquista de consciências para as fileiras da harmonia somente é possível mediante o estabeleci­mento de diretrizes saudáveis, nas quais, mesmo a dor assumiria a sua realidade de fenômeno degenera­tivo inevitável, no entanto, possível de ser superada, resistida, diluída através das reflexões e da renovação de energia que preserva o equilíbrio da existência.

A imposição temerária decorre do sentimento de culpa dos religiosos, que a transferem para aqueles que se lhes submetem, passando a depender das suas injunções psicológicas mórbidas.

Sem a semana ultrajante, sem os conteúdos da ingratidão humana em extremo, não Lhe teríamos a morte estóica, eloquente, grandiosa, demonstrando a Sua consciência de imortalidade.

Após a sua ocorrência, todo um solene hino à vida foi apresentado através da ressurreição, do retorno ao convívio com os amigos temerosos e com a humani­dade arrependida que Ele veio libertar, amando, paci­ente e alegre, por conhecer os limites e deficiências daqueles que marcham na retaguarda, no entanto fi­tam expectantes e avançam no rumo do futuro.

DIVALDO P. FRANCO - O SER CONSCIENTE - Pelo Espírito Joanna de Ângelis

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