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terça-feira, 12 de julho de 2011

DESIDENTIFICAÇÃO




Podemos considerar a personalidade humana constituída de essência e substância. A primeira são as energias que procedem do Eu profundo, as vibra­ções que dimanam da sua causalidade, e a segunda é a reunião dos conteúdos psíquicos, transformados em atos, experiências, realizações, decorrentes do ambiente, das circunstâncias, e reminiscências das existências passadas.

São as substâncias que respondem pelo compor­tamento do ser, propiciando-lhe liberdade ou escravi­dão e dando nascimento ao eu.

Numa pessoa média, portadora de consciência, sem a nobre conquista do discernimento e da vivên­cia compatível, a ilusão e os engodos se estruturam, passando à posição das realidades únicas, que igno­ram, por efeito, a legítima Realidade.

Essa deturpação psicológica proporcionada pelo ego, que se entorpece e se engana, contribui para as experiências utópicas e alienadoras, que lhe alteram a conduta, produzindo estados profundamente per­turbadores.

O hábito e o cultivo dos pensamentos viciosos, de qualquer natureza, tornam-se as substâncias que for­mam a personalidade doentia, que se adapta aos fa­tores dissolventes, rompendo a linha do equilíbrio e do discernimento, empurrando para o trânsito pela senda da irrealidade.

Sem dúvida, a pessoa portadora de substâncias fragmentadoras move-se em um verdadeiro nevoeiro, que é mais compacto ou mais sutil, conforme as fixações, os vícios a que se aferra.

Identificando-se com as idéias que lhe são convenientes -algumas de pro­cedência psicopatológica- adapta-se-lhes e incorpo­ra-as, deformando a personalidade, e esta irrealida­de termina por afetar-lhe a individualidade, caso não se resolva pela psicoterapia específica e urgente.

Expressam-se essas identificações nas áreas fisio­lógicas -como sensações- e psicológica -como emoções.

Toda vez que a pessoa tenta a conscientização íntima, o encontro com o Eu profundo, a busca interior, as sensações predominantes nas paisagens físicas per­turbam-lhe a decisão, impedindo a experiência. São sen­sações visuais, gustativas, olfativas, auditivas, tácteis, com as quais convive em regime de escravidão, e que assomam no silêncio, na concentração, ocupando o es­paço mental, desviando a atenção da meta que busca.

São ruídos externos que, em outras circunstânci­as, não são percebidos; imagens visuais arquivadas, aparentemente esquecidas; olfação excitada, que pro­voca o apetite; coceiras e comichões que surgem, si­multâneos, em várias partes do corpo; salivação e de­sejo de alimentar-se, tomando os centros de interesse e desviando-os da finalidade libertadora.

Por outro lado, nos tentames do silêncio interior para reequilíbrio da personalidade, as sensações pro­duzem associações de idéias que levam a evocações insensatas.

Música e perfume retornam à sensibilidade orgâ­nica e induzem a recordações atribuladoras, com la­mentáveis anseios de repeti-las e frui-las novamente.

A mente viciada e o corpo acomodado dificultam o despertar da consciência para a lucidez.

A atividade de desidentificação, por isso mesmo, torna-se urgente.

Mediante a mudança dos hábitos mentais, do cul­tivo das idéias -substituindo as perturbadoras por outras saudáveis, já que todo espaço deve ser preen­chido- do exercício disciplinado dos pensamentos, passando à alteração dos prazeres e gozos ilusórios que devem ceder lugar àqueles que se expressam como manifestação da Realidade plenificadora, ocor­rerá a libertação dos vícios e fixações, desidentifican­do-se da conduta tormentosa.

Como envoltórios concêntricos que asfixiam as irradiações do Eu real, as identificações deverão ser liberadas de dentro para fora, portanto, da essência para a substância.

A medida que a consciência se desenovela dos impedimentos psíquicos, mais amplas descobertas são logradas nas áreas das identificações, que pas­sam a ser diluídas, permitindo-a fulgir qual estrela poderosa no velário da noite transparente.

A consciência desidentificada com a personalida­de fragmentada, enfermiça, proporciona bem-estar.

Essa conquista, a da consciência plena, faculta alegria. Como conseqüência, o silêncio interior cons­ciente, responsável pela saúde psíquica e emocional, predispõe o ser ao crescimento das aspirações e ao esforço dos ideais de enobrecimento.

Nessa fase de desidentificação e lucidez plena, a consciência predispõe-se à conquista do estágio mais elevado, pelo menos na área humana, que é a sua harmonização total com a de natureza Cósmica.

DIVALDO P. FRANCO - O SER CONSCIENTE - Pelo Espírito Joanna de Ângelis

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