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sexta-feira, 15 de julho de 2011

PRAZER E GOZO



O   sentido, o significado da vida centra-se na bus­ca e no encontro da felicidade. Constitui o mais fre­qüente desafio existencial responsável pelas contínu­as realizações humanas. A felicidade, por isso, torna-se difícil de ser lograda e, não raro, muito complexa, diferindo de conteúdo entre as pessoas em si mes­mas e os grupos sociais. Confundida com o prazer, descaracteriza-se, fazendo-se frustrante e atormen­tadora.

A visão da felicidade é sempre distorcida, levan­do o indivíduo a considerar que, quando não se en­contra feliz, algo não está bem, o que é uma conclusão incorreta.

O   sonho humano da felicidade é róseo, assinala­do pelo conforto, o ócio e o poder, graças aos quais se desfrutaria de bem-estar e gozo, inadvertidamente considerados o seu logro.

Certamente as pessoas ri­cas dispõem, em quantidade, de horas assim vividas, sem que se hajam considerado felizes, mas antes se encontrado tediosas, e o tédio é, sem dúvida, um dos seus grandes opostos, em cujo bojo fermentam mui­tas desgraças.

A felicidade se expressa mediante vários requisi­tos, entre outros, os de natureza cultural, atavismo que lega ao indivíduo o meio social de onde se origina e no qual se encontra, de nível de consciência e de maturi­dade psicológica.

Esses fatores estabelecem as diferenças de qua­lidade do que é ser feliz, face às variações que im­põem nos grupos e nos seres humanos, demonstran­do que as aspirações de uns nem sempre correspon­dem às de outros.

O nível de consciência e o amadurecimento psi­cológico estabelecem os graus nos quais se expres­sa, as realizações plenificadoras, os estados de feli­cidade.

Perseguindo-se o gozo, o prazer, experimenta-se alegria toda vez que são alcançados, assinalando-se esses momentos como de felicidade que, no entanto, não correspondem ao sentido profundo, de magnitu­de que ela reveste.

A interpretação equivocada conduz a buscas ir­reais, que perdem o significado quando se alteram os fatores que a constituem. A sua visão, em deter­minada época da existência, muda completamente em outro período.

A imaturidade psicológica de uma fase, a juvenil, por exemplo, predispõe a uma aspiração de felicida­de que, conseguida, logo desaparece, e observada mais tarde apresenta-se desagradável, perturbado­ra. Por essa razão, é necessário que se entenda que a felicidade tem a ver com o que o indivíduo é e com o que ele pensa ser. A diferença, entre o que supõe ser e a sua realidade, dimensiona o seu quadro de dese­jos, de prazeres e gozos que interpreta como a bus­ca plenificadora da felicidade.

Assim, a felicidade tem a ver com a identificação do indivíduo com os seus sentidos e sensações, os seus sentimentos e emoções, ou as suas mais elevadas as­pirações idealistas, culturais, artísticas, religiosas, com a verdade.

Na fase dos sentidos, o gozo se transforma de­pois de fruido em insatisfação, ansiedade ou depres­são; no período dos sentimentos, o prazer derrapa em paixões possessivas, que dão margem a tragédias e angústias logo estejam saciados; no ciclo idealista, religioso, transcendental, a busca transpessoal fo­menta a autodescoberta, a auto-realização, a auto-doação, em serviços desinteressados de libertação do ego e participação na vida, individual como coleti­va, dos seres, da vida, da Terra.

Essa busca é diferente da ambição de ser virtuo­so, na qual mascara o ego e apresenta-o, entregando-se a macerações que ocultam gozos patológicos ou a narcisismos, em mecanismos de evasão da realidade para planos egóicos, masoquistas-exibicionistas, com aparência de humildade e renúncia. Quando reais, essas expressões de virtude são ignoradas pelo pró­prio candidato em quem são naturais, sem os condi­mentos do prazer embutidos na fuga psicológica que as falseiam.

Para que a identificação do indivíduo com a sua busca de serviço seja legítima, há uma perfeita união com o self, de tal forma que não haverá diferença entre dar e receber, amar e ser amado, viver e morrer... Apressadamente, há quem afirme que a felicida­de tem a ver com o princípio freudiano do prazer, e que através desse comportamento se poderiam satisfazer as necessidades e evitar a dor. Não obstante, a dor não pode ser evitada. Considerá-la como um fenômeno natural do processo de evolução, encarando-a como instrumento de promoção do ser em relação à vida, eis uma forma eficaz de lograr a alegria, superando os seus mecanismos desgastantes e as ocorrências de­generativas, que não compreendidos e aceitos com equilíbrio conduzem à infelicidade.

Da mesma maneira, a felicidade não se radica na satisfação de qualquer desejo do ego, porqüanto, após satisfazê-lo, manifesta-se com veemência, gerando ansiedade e desconforto.

Surge então a compreensão transpessoal da existência, e o desejo egóico cede lu­gar à aspiração espiritual, a uma busca mais profun­da, desidentificada com os condicionamentos passados com pessoas e coisas. Provavelmente, nessa bus­ca surgirão o sofrimento, o desconforto, que irão ce­dendo lugar à harmonia e ao bem-estar, a medida que se alcancem as bases objetivadas da realização pleni­ficadora. Lentamente desaparece a frustração da vida cotidiana, alargando-se o campo do idealismo e da identificação com a deidade, mediante afirmação reli­giosa ou, com o eu profundo, em manifestação psico­lógica. A princípio, o caminho da busca se afigura es­curo qual um túnel, cuja claridade está distante, mas que se torna maior quanto mais se lhe acerca da saí­da. Essa busca, qual ocorre com qualquer outra, é rea­lizada com a mente, que deve solucionar as dificuldades, à proporção que se apresentem, eliminando o sofrimento perturbador, tratando-se de um contínuo e lúcido trabalho interno.

Na busca da felicidade são inevitáveis os estági­os de sofrimento e de prazer, por constituírem fenô­menos da experiência humana, da realização do self desidentificando-se do ego. O lamentável, nessa ocor­rência, tem lugar com o surgimento e instalação do tormentoso sentimento de culpa, que nega inconsci­entemente ao indivíduo o direito de fruir a felicidade, ou mesmo o prazer, sem o estigma do sofrimento. Para fugir-lhe à imposição, busca-se o oceano do gozo, afo­gando ali os ideais mais altos na denominada opção realista, que entretanto consome os sentimentos e perturba as emoções, saturando-os ou desbordando-­os, rebaixando-os ao nível das sensações.

Há um mecanismo castrador impeditivo da ex­periência do prazer, que podemos considerar como sendo inibição. Além dele, a consciência de culpa conspira contra a realização da felicidade.

Tão arrai­gada se encontra no ser humano, que toda vez que as circunstâncias propiciam a presença do prazer — a pes­soa crê não merecer desfrutá-lo — ou da felicidade — o indivíduo receia vivê-la, não se permitindo experien­ciá-la — surge o temor de que algo mau sucederá.

Para desarticular es se mecanismo conflitador, torna-se necessária uma tomada de consciência de si mesmo, procurando descobrir a fonte geradora da inibição, para a psicoterapia libertadora convenien­te, que pode ter origem na conduta infantil — educa­ção coercitiva, meio social asfixiante, família domina­dora — ou proceder de reencarnações passadas — uso incorreto do livre-arbítrio, conduta irregular, exagero de paixões. Tal inibição, associada ao sentimento de culpa, castiga o ser, impedindo-o de fruir momentos de recreação, de ócio, levando-o a tormentos quando não se encontra produzindo algo concreto, o que se lhe torna uma necessidade compulsiva, portanto patológica.

Certamente não se deve viver para a ociosidade dourada, tampouco, exclusivamente, para a atividade estressante. Há todo um rico arsenal desportivo, um infinito painel de belezas naturais convidativas, um sem-número de estesias mediante a leitura, a arte, a conversação, um abençoado campo de idealismo atra­vés da prece, da meditação, do controle da mente, que se constituem tônicos revigorantes para as ações ge­radoras da felicidade e dos quais todos podem e de­vem dispor quanto aprouver. Esses interregnos nas atividades, enriquecidos de prazeres mais amplos, são estímulos para a criatividade, a libertação de car­gas psicológicas compressivas, a auto-realização.

Essa busca, do self profundo, deve superar e mes­mo arrebentar as resistências inibidoras, o sentimen­to de culpa, cujas energias serão canalizadas para a conquista da felicidade.

DIVALDO P. FRANCO - O SER CONSCIENTE - Pelo Espírito Joanna de Ângelis

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