Páginas

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O ESSENCIAL



Face ao inevitável processo de crescimento do Eu profundo, a vida assume características variadas, e as oportunidades se deparam convidativas, acenan­do com a libertação, que somente se consegue a pe­nosos esforços.

Na fase inicial da predominância egocêntrica, o ser projeta-se no mundo com o qual se identifica, apri­sionando-se no emaranhado das coisas exteriores, sob conflitos que não tem condições de administrar, qua­se sempre desequilibrando-se e passando a estados neuróticos de insatisfação, ansiedade, medo ou a alu­cinações variadas.

O apego, essa fixação perturbadora à ímperma­nência, a que pretende dar perenidade, constitui-lhe a meta existencial.

Mais tarde, em tentativas de desvencilhamento da situação psicológica infantil, avança para a posi­ção egoísta, cultivando os valores pessoais, narcisis­tas, com os quais se engolfa, despertando na amargu­ra, sob os camartelos do tempo degenerador e da frus­tração tormentosa.

O essencial, quase sempre, permanece-lhe em plano secundário na paisagem psicológica das aspi­rações conflitivas.

À medida que amadurece, transfere-se das coisas e prisões egóicas para a conquista da sua realidade: o desenvolvimento do Eu profundo que deve predominar comandando os anelos e programas de libertação.

Somente a consciência de si propiciar-lhe-á a vi­são diferenciadora dos fenômenos perturbadores, em relação àqueloutros de plenificação.

Em tentativas brilhantes e sucessivas de pene­trar os níveis, os patamares da consciência, psicólo­gos e estudiosos outros, das áreas das ciências psí­quicas, levantam-lhe a cartografia que, variando de escola e estágio, segue os mesmos processos de de­senvolvimento que são compatíveis com o crescimen­to do ser, conforme as suas experiências vivenciais na busca da saúde real.

Desejando ampliar o campo da análise dos seus pacientes, enquanto Freud fundamentava a Psicanáli­se e a difundia, Roberto Assagioli, na Itália, porque defrontava com dificuldades para aplicar, em alguns deles, as recomendações da doutrina que absorvera do mestre vienense, começou a trabalhar na organi­zação da Psicossíntese, na qual encontrou mais am­plos recursos terapêuticos para liberá-los, assim alar­gando os campos do entendimento das personalida­des conflitivas.

Posteriormente, o bioquímico Robert De Ropp, estudando carinhosamente as reações cerebrais, en­tre outras experiências, e buscando produzir estados alterados de consciência, formulou as bases e os para­digmas da sua Psicologia Criativa, inspirando-se nas experiências de George Ivanovitch Gurdjieff, com os seus complexos contributos psicológicos e cosmoló­gicos místicos.

Buscando interpretar o mestre russo, De Ropp classificou os níveis de consciência em cinco estági­os: consciência de sono sem sonhos; de sono com so­nho; de sono acordado; de transcendência do eu e de consciência cósmica...

Para ele, o homem evolve de maneira inespera­da, às vezes, de um para outro nível, especialmente nos dois primeiros estágios de adormecimento...

Mediante psicoterapia acurada e exercícios cui­dadosos, logra-se o avanço pelos diversos patamares, até a etapa final, que se torna de difícil verbalização face às emoções e descobrimentos conseguidos, nes­se momento de perfeita integração com o que podería­mos chamar o Logos, o pensamento divino.

No primeiro nível -quando se transita no sono sem sonhos- apenas os fenômenos orgânicos automáticos se exteriorizam, assim mesmo sem o conhecimento da consciência, tais: respiração, digestão, reprodução, circulação sanguínea...

Como se estivesse anestesiada, ela não tem ação lúcida sobre os acontecimentos em torno da própria existência, e a ausência de vontade do indivíduo con­tribui para o seu trânsito lento do instinto aos pródro­mos da razão.

No segundo nível, o sono com sonhos, ele libera clichês e lentamente incorpora-os à realidade, pas­sando pelas fases dramáticas -os pesadelos, os pa­vores- para os da libído -ação dos estímulos sexuais -e os reveladores- que dizem respeito à parcial liber­tação do Espírito quando o corpo está em repouso...

O desenvolvimento da consciência atinge o ter­ceiro nível, o de sono acordado, no qual a determina­ção pessoal, aliada à vontade, conduz o ser aos ideais de enobrecimento, à descoberta da finalidade da sua existência, às aspirações do que lhe é essencial, ao auto-encontro, à realização total.

Naturalmente, a partir daí, ascende ao quarto es­tado, que é a descoberta da transcendência do eu, a identificação consigo mesmo, com a conseqüente li­beração do Eu profundo, realizando a harmonia ínti­ma com os ideais superiores, seu real objetivo psico­lógico existencial.

A superação dos conflitos, das angústias, a desi­dentificação dos conteúdos psicológicos afugentes, permitem a iluminação, e a próxima é a meta da vin­culação com a consciência cósmica.

Nem sempre, porém, o homem e a mulher conse­guem alcançar esse nível ideal, fenômeno que, não obstante, será realizado através das reencarnações que lhes facultarão a vitória sobre os carmas negati­vos e, mediante as leis de causa e efeito, passo a pas­so, em esforço contínuo poderão fazê-lo.

Da mesma forma, a reencarnação aclara a carto­grafia da consciência de De Ropp, quando ele analisa os níveis que diferenciam os indivíduos na imensa mole humana.

As experiências acumuladas promovem ou retêm o indivíduo nos fenômenos decorrentes das ações praticadas, beneficiando-os ou afligindo-os com as sombras que lhes permanecem dominadoras, na con­dição de resíduos espirituais. A consciência filtra-os e, por não os poder digerir, transforma-os em conflitos, perturbações, estados psicopatológicos, requerendo terapias especializadas e contínuas.

Em qualquer nível, porém, a partir do sono com sonhos, a vontade desempenha um papel relevante, impulsionando o ser a novas realizações e conquistas completadoras que enriquecem o arsenal psicológico, amadurecendo o essencial à vida e selecionando-o do amontoado egóico do supérfluo.

Psicoterapeuta Excepcional com a Sua visão rea­lista e criativa, Jesus definiu a necessidade de bus­car-se primeiro o reino dos Céus, pois que esse fanal ensejaria a conquista de todas as outras coisas. E ób­vio que, ao se adquirir o essencial, todas as coisas perdem o significado, por se encontrarem destituídas de valor face ao que somente é fundamental. Outros­sim, alertou sobre o imperativo de fazer-se ao próximo o que se gostaria que este lhe fizesse, fixando no amor o processo de libertação, na ação edificante o meio de crescimento e na oração fortalecedora a energia que proporciona o desiderato.

Esse desempenho favorece a perfeita identifica­ção do sentimento com o conhecimento, resultando na conquista do Eu profundo em sintonia com a Cons­ciência Cósmica.

DIVALDO P. FRANCO - O SER CONSCIENTE - Pelo Espírito Joanna de Ângelis

Nenhum comentário:

Postar um comentário